A prática do trote é um contraste com a evolução do homem
Em sentido amplo, o trote é o maior e mais explícito saco de maldades
que ainda existe. E a sua prática maquiavélica, que nunca foi uma brincadeira
saudável, só encontra comparação com a época da ditadura “tortura nunca mais”.
Por isso, ele é abominado pela sociedade. Quando um fato desagradável ou um acidente fatal acontece por causa de
trote estudantil, diversas opiniões aparecem nos noticiários de jornais
criticando os atos violentos e ao mesmo tempo sugerindo que esses eventos
medíocres, apesar de tradicionais, deveriam acontecer sem violências. Apenas
lamentam, mas nada propõem para a sua extinção. A cada ano surgem acontecimentos
trágicos e inéditos, em virtude da grande criatividade que os universitários veteranos
possuem para esse tipo de delito. Isso mesmo! Trata-se de crime praticado
contra a honra e a moral dos alunos recém-chegados à universidade, imbuídos de
esperanças para um futuro promissor. Definitivamente esse formato medieval não
é o ideal para marcar o ingresso de estudantes no ensino superior. Há
formalidades para isso. O trote estudantil não é uma exclusividade brasileira,
muito menos foi inventado no Brasil. Seu histórico pode ser traçado a partir do
começo das primeiras universidades, na Europa da Idade Média. Todavia, o Brasil
tem a fama de “importar” tudo o que não presta: armas, drogas e know-how dos
trotes. São também consideradas brincadeiras maldosas, sem as quais os trotes perderiam
toda a essência e deixariam de existir. Por isso, não se trata de fatalidade
enquanto consequência de trotes. Para amenizar o caráter de trote, que carrega o
estigma de "inconveniente", foi criado o trote solidário. Dessa
forma, aumentam-se os tipos de trote: trote estudantil (tradicional e
perverso); trote solidário ou cidadão (coleta de alimentos e doação de sangue);
trote telefônico (SAMU, Polícia, Bombeiro). O trote solidário deveria chamar-se
"Campanha da Solidariedade Universitária" para ficar mais coerente
com os seus objetivos. Quanto ao trote telefônico, todos já sabem que causam
sérios transtornos ao poder público e prejudicam a população nos atendimentos
de urgência. O trote estudantil representa um ritual de violência e agressão físicas
contra os calouros, muitos dos quais são forçados a faltar os primeiros dias de
aula, comparecendo somente após o término das sessões de torturas aplicadas
pelos estudantes mais antigos. Ao calouro que se recusar a participar das
atividades são endereçadas várias represálias: agressões verbais e físicas,
bullying e outras ameaças. Isso, no mínimo, sugere que os veteranos agressores
respondam pelos crimes de maus-tratos e tortura. A alegação de que o trote é
uma tradição, e que por isso não poderia ser extinto, conta com o apoio da
maioria dos universitários, veteranos e calouros, que sobreviveram a esses
massacres. Inclusive, muitos pais também apoiam essa forma de recepcionar a
calourada. Para reflexão, cabe uma pergunta: será que os pais das vítimas
fatais concordariam com a continuidade dos trotes estudantis, mesmo
considerando que eles são uma tradição? Em nome da tradição, praticam-se os
mais cruéis atos de humilhação e barbárie com o seu semelhante ou colega
universitário. Antigamente, diziam que as práticas criminosas eram produto da
falta de instrução ou conhecimento cultural. Mas hoje em dia verifica-se que a
ocorrência dessas práticas independe do nível de escolaridade, pois justamente
nas universidades, onde deveriam primar pelo exemplo de comportamento social,
acontecem casos inacreditáveis que poderiam colocar em xeque a confiança ou a capacidade
profissional de muitos alunos em formação superior. Assim como a criminalidade
urbana, os trotes nas universidades são também muito preocupantes e deveriam
fazer parte do seminário "Violência urbana
em Juiz de Fora: o que deve ser feito?”. Por conseguinte, seria bem-vinda uma
proposta de criação de lei, em regime de urgência, com origem nas
universidades, a ser encaminhada ao governo federal, com vistas à proibição de
trote estudantil e punição severa aos infratores. No caso das medidas proibitivas
ao trote, existentes em algumas universidades, a prevalência da tolerância zero
já seria um primeiro passo. A extinção radical do trote estudantil proporcionaria
maior tranquilidade a todos: educadores, alunos e pais.
Celso Pereira Lara
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